03/06/2013
Por Nonato Guedes
Secretário de Segurança Pública de Tarcísio Burity, nos dois governos que este exerceu, entre o final da década de 70 e o final da década de 80, o coronel Geraldo Navarro foi o idealizador da Operação Manzuá, destinada a combater a criminalidade na Paraíba. Cunhado do ex-governador e ex-chefe de gabinete do falecido general Antonio Bandeira, Navarro avaliou, em entrevistas, que a Operação cumpriu seus objetivos e colaborou, por exemplo, para reduzir de forma expressiva o índice de roubos de carros e assaltos à mão armada, na Capital e em municípios do interior. Manzuá, que segundo os dicionários, significa “armadilha” ou engradado de varas, empregado na pesca, espécie de covo onde o peixe entra por uma abertura e não encontra saída, foi planejada tendo por base a instalação de barreiras fixas em pontos estratégicos da malha viária do Estado.
A reativação da Operação foi proposta na Assembléia Legislativa esta semana pelo deputado Raniery Paulino, do PMDB, ainda sob o impacto do quadro de terror que bandidos de Estados vizinhos detonaram na cidade de Princesa Isabel, comandando assaltos a bancos, agência lotérica, trocando tiros com a polícia e fazendo reféns até fugirem. No período de Navarro, a Operação serviu como modelo para vários Estados, cujos secretários fizeram questão de vir à Paraíba conhecer a estratégia operacional do experimento. Ela só se tornou viável graças ao trabalho desenvolvido pela Academia de Polícia do Estado na preparação do corpo policial e o aperfeiçoamento da Polícia Científica com vistas a uma maior rapidez no acesso às informações de que as autoridades precisavam para operar. A Manzuá permitiu o desmonte de um sistema de delinqüência que sobrevivia no Estado. “Não descobrimos nada, apenas pusemos o ovo em pé, e os resultados estão aí”, chegou a afirmar o coronel Navarro, explicando a filosofia que imprimiu na área da Segurança Pública. Antes da Manzuá, a média de carros roubados em João Pessoa era de 45 a 50 por mês. Esse índice caiu para dois, e houve mês em que chegou a zero. Os assaltos à mão armada caíram de 11 para um, em 1988.
Navarro tornou-se homem forte na administração quando ganhou instrumentos legais para tornar implacável a luta contra o crime. Por decisão da Assembléia Legislativa, com base em projeto enviado pelo governo, o então secretário passou a comandar de forma única e indivisível o Sistema Estadual de Segurança, mantendo sob seu controle, a um só tempo, as ações da Polícia Militar e Polícia Civil ou Judiciária. A unificação foi um tento que ele perseguia desde que assumira o cargo. Até então, as Polícias Militar e Civil atuavam de forma desordenada e viviam, mesmo, em clima de pé de guerra entre si. Quando a Polícia Militar esteve sob o comando do coronel Marden Costa, exonerado depois que se rebelou contra o projeto dando poderes a Navarro, era comum delegados de polícia serem desobedecidos pelos policiais militares. Em João Pessoa, delegacias distritais comandadas pela Polícia Civil entravam em choque com postos policiais subordinados ao comandante da PM.
No episódio da Operação Manzuá, Navarro idealizou, além do cerco externo, nas barreiras que davam acesso a cidades, o cerco interno, através de ‘blitzen’ que seriam promovidas em bairros alternados na caça a suspeitos de crimes. Essas ‘blitzen’ teriam caráter misto, envolvendo a participação de policiais militares e de agentes e delegados da Polícia Judiciária. A estratégia não deu certo porque Marden, no comando da PM, recusou-se a colaborar, embora ele tenha divulgado uma outra versão para os fatos. Houve discordância, por exemplo, no destino dos armamentos apreendidos e não reclamados. Navarro sugeria que nessa hipótese as armas deveriam ser levadas à Secretaria de Segurança, recuperadas e distribuídas mediante controle aos próprios policiais. Marden propunha que as armas fossem recolhidas ao setor competente do Exército para serem inutilizadas. O secretário argumentava que um Estado pobre como a Paraíba não poderia se dar ao luxo de desperdiçar material. Ele defendia a tese de que não cabia à polícia debruçar-se na análise das causas da violência, e, sim, atuar em cima dos efeitos causados. “O que é claro, para mim, é que a violência precisa ser combatida para que não se realimente em prejuízo da segurança da população”, proclamava.
Efeito psicológico – O efeito psicológico exercido pela Operação no combate à criminalidade era indiscutível, tanto assim que grupos de extermínio, durante alguns meses, excluíram a Paraíba da rota de suas investidas. Em São Luís, no Maranhão, a Operação foi adaptada a outras atividades, como realizar ‘blitzen’ para coibir crimes ambientais, a exemplo de aparelhos de som em automóveis acima do limite legal permitido. No governo Cássio Cunha Lima, o então secretário de Segurança e Defesa Social, Eitel Santiago, anunciou que a Manzuá poderia ser extinta e que um estudo de viabilidade havia sido encomendado pelo governador para tomar uma decisão. O sistema, a essa altura, era considerado ineficiente. Surgiam denúncias de extorsão por parte de policiais nas barreiras da Manzuá contra motoristas e cidadãos comuns. Eitel considerava que teria que haver uma reformulação na sistemática da Operação, observando que nos primeiros anos de atuação ela deu resultados, mas questionando se ela ainda atenderia às necessidades dos paraibanos.
Algumas mudanças chegaram a ser efetuadas na gestão de Cássio, como a criação de um grupo especializado em abordagem e bloqueio de automóveis e a abrangência das áreas de combate ao crime. A polícia também passou a cumprir mandados judiciais expedidos, para facilitar a identificação de suspeitos e a captura de criminosos declarados. Em 2009, no período em que José Maranhão voltou ao governo do Estado, o então secretário de Segurança e Defesa Social, Gustavo Gominho, pugnava pela reativação da Manzuá com uma filosofia baseada no “fator surpresa” durante as abordagens, o que daria à polícia condições para agir com mais liberdade e elasticidade no confronto com os grupos que se tornaram mais sofisticados. A extinção da Operação se deu mesmo no governo Ricardo Coutinho, investido em 2011, mas o atual secretário de Segurança e Defesa Social, Cláudio Lima, não é contra a proposta de reativação sob nova concepção. Ele já avisou que o requerimento do deputado Raniery Paulino será analisado pelo governador para avaliar a conveniência e os meios possíveis de retorno da Operação Manzuá, em nova padronagem.