11/07/2013
Pressionado pela alta do dólar
e seu impacto na inflação, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco
Central se reuniu nesta quarta-feira (10) e decidiu aumentar a taxa básica de
juros da economia brasileira de 8% para 8,5% ao ano, uma alta de 0,5 ponto
percentual.
Esse foi o terceiro aumento
consecutivo na taxa Selic, que vem subindo desde abril deste ano, o que elevou
os juros para o maior nível desde abril de 2012 – quando estavam em 9% ao ano.
A decisão também levou o
Brasil à vice-liderança no ranking mundial de juros reais (após o abatimento da
inflação prevista para os próximos doze meses), calculado pelo MoneYou, com
taxa de 2,5% ao ano, perdendo apenas para a China (2,9% ao ano). No fim de
maio, na reunião anterior do Copom, o país estava em quarto lugar nos maiores
juros reais de todo mundo.
Com o aumento de 0,5 ponto nos
juros básicos da economia, o Copom também confirmou a aposta quase unânime dos
economistas do mercado financeiro. Os analistas projetam ainda mais duas
elevações neste ano para a taxa de juros, que, segundo suas estimativas, deverá
fechar 2013 em 9,25% ao ano. Ao fim do encontro, foi divulgada a seguinte
frase: "Dando prosseguimento ao ajuste da taxa básica de juros, o Copom
decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic para 8,50% ao ano, sem viés. O
Comitê avalia que essa decisão contribuirá para colocar a inflação em declínio
e assegurar que essa tendência persista no próximo ano".

Sistema de metas e objetivo do BC - Pelo sistema de metas que vigora no Brasil, o BC tem de calibrar os juros
para atingir as metas pré-estabelecidas, tendo por base o IPCA. Ao subir os
juros, o BC atua para controlar a inflação e, ao baixá-los, julga,
teoricamente, que a inflação está compatível com a meta. Para 2013 e 2014, a meta central de
inflação é de 4,5%, com um intervalo de tolerância de dois pontos percentuais
para cima ou para baixo. Deste modo, o IPCA pode ficar entre 2,5% e 6,5% sem
que a meta seja formalmente descumprida.
Entretanto, o próprio Banco
Central tem previu, no relatório de inflação divulgado no fim de junho, um IPCA
próximo de 6% neste ano. Os dados mostram que a instituição manteve a taxa
básica de juros inalterada na mínima histórica, em 7,25% ao ano desde outubro
do ano passado, elevando-a somente em abril, mesmo com a deterioração do
cenário de inflação registrado no primeiro trimestre deste ano. Em doze meses
até junho, o IPCA somou 6,7%.
"Mesmo com o BC apertando
a política de juros, acho que a inflação vai continuar perto de 6% neste ano e
em 2014. Se não apertar, piora. Eu acho que o BC, depois de ter promovido uma
queda muito grande anteriormente nos juros, sem ter a garantia de que a
inflação estava sob controle, demorou muito para começar a subir a taxa básica",
avaliou Alcides Leite, economista e professor da Trevisan Escola de Negócios.
A alta de juros, segundo
economistas, também pode impactar, entretanto, o crescimento da economia
brasileira, que tem sido constantemente revisado para baixo. No fim de 2012, o
mercado financeiro estimava que o Produto Interno Bruto (PIB) do país avançaria
3,30% neste ano. Na semana passada, a previsão já havia recuado para um
crescimento de 2,34% e já há economistas falando em 2% de alta.
Alta do dólar
e mercado de trabalho - O economista Alcides Leite avaliou que o fator que mais influenciou o
Copom a subir os juros nesta quarta-feira é a alta do dólar - que opera próximo
de R$ 2,30 devido à sinalização dos Estados Unidos em retirar os estímulos
monetários nos próximos meses, e também por conta de dúvidas sobre a condução
da política econômica no Brasil. Até meados de maio, a moeda norte-americana
oscilava ao redor de R$ 2.
"Não podemos
desconsiderar que quase 25% dos produtos consumidos em nossa economia são
importados, e assim, o dólar elevado acentua pressão inflacionária mais
intensa", avaliou Sidnei Nehme, da NGO Corretora.
Analistas do mercado analisam
que uma alta de R$ 0,10 no preço do dólar poderia ter um impacto de, no máximo,
0,2 ponto no IPCA deste ano. Deste modo, se o dólar estava em cerca de R$ 2
antes da sinalização do BC norte-americano e passou, atualmente, para um valor
próximo de R$ 2,30, o impacto seria de até 0,6 ponto percentual no IPCA.
Entretanto, o dólar teria de permanecer neste patamar.
Antes da alta recente do
dólar, a expectativa dos economistas dos bancos era de que o aumento dos juros
total previsto para este ano seria de um ponto percentual, passando de 7,25%
para 8,25% ao ano no fim de 2013. Após a disparada do câmbio, os economistas
passaram a prever um ciclo bem maior de alta dos juros: para 9,25% ao ano no
fim de 2013.
No fim de junho, o Copom
também reafirmou, no relatório de inflação, que um "risco importante"
para a inflação tem origem no mercado de trabalho - que mostra "estreita
margem de ociosidade" (dados do IBGE mostram o desemprego próximo da
mínima histórica). "O Comitê reafirma que um aspecto crucial nessas
circunstâncias é a possibilidade de o aquecimento no mercado de trabalho levar
à concessão de aumentos reais de salários incompatíveis com o crescimento da
produtividade, com repercussões negativas sobre a dinâmica da inflação",
informou o Banco Central.
Atração de
capitais - Além de combater os efeitos do dólar alto nos preços, a alta de juros,
segundo analistas do mercado financeiro, teoricamente contribuiria para evitar
uma pressão maior de alta na cotação da moeda norte-americana. Isso porque, com
juros maiores, poderia haver uma maior atração por capitais em busca de uma
remuneração também mais alta, sendo que o Brasil tem, agora, a segunda taxa de
juros real mais alta do planeta.
Para o economista Sidnei
Nehme, porém, não é possível ter expectativas de melhora de fluxos de recursos
externos para o país. "O desgaste de imagem do Brasil, na visão do
investidor estrangeiro, tem sido muito intenso. A credibilidade na política
econômica em geral, incluindo o BC, é muito baixa, e as perspectivas de
atividade econômica são cadentes, refletindo diretamente na perspectiva de
crescimento do PIB, que vem sendo vigorosamente revisto para pior por analistas
econômicos e pelo mercado financeiro", avaliou ele.
Em sua visão, a balança
comercial fragilizada (com o pior resultado em 18 anos no primeiro semestre),
além do nível de investimentos externos "insuficientes", de uma
política fiscal (contas públicas) severamente criticada (pelo uso de manobras
contábeis) em um ambiente de crescente déficit em transações correntes (nas
operações do Brasil com o exterior) "fomentam e dão sustentabilidade à
tendência de alta do preço da moeda americana".
cancaonoticias com G1