sábado, 30 de março de 2013

Dilma cobra resultados e fica insatisfeita com a Comissão da Verdade

30/03/2013

A presidente Dilma Rousseff, que foi vítima de tortura durante o regime militar, não esconde sua insatisfação com os resultados alcançados até agora pela Comissão Nacional da Verdade, por ela instituída a fim de apurar violações de direitos humanos no país. A presidente, segundo “O Globo”, chegou a cobrar uma mudança de rumos nos trabalhos do colegiado. Em conversas recentes com integrantes do grupo, Dilma exigiu resultados concretos e que sensibilizem a opinião pública, já que pouco do que está sendo feito vem sendo divulgado. A principal intervenção da presidente foi no sentido de pedir que a Comissão invista mais nos depoimentos públicos de familiares, como forma de promover uma ‘catarse nacional’. Alguns focos de resistência a esse tipo de atuação no âmbito da Comissão desagradaram ao Palácio do Planalto, que acompanha de perto os trabalhos. Somente este ano, Dilma já teve reuniões reservadas com Cláudio Fonteles e com Paulo Sérgio Pinheiro.

O próximo passo da Comissão, que deverá causar comoção nacional, será atuar junto à Justiça brasileira para que autorize a exumação do corpo do ex-presidente João Goulart, deposto e exilado pelo golpe militar. A exumação já foi autorizada pelos familiares de “Jango”, que acusam os governos militares na América do Sul, no âmbito da Operação Condor, de terem assassinado o ex-presidente em 1976. Um juiz uruguaio requisitou a exumação, e o governo brasileiro concordou automaticamente com o pedido. Integrantes do colegiado garantiram à presidente que a Comissão já reuniu uma grande quantidade de informações inéditas, e que terá um material consistente para apresentar ao fim do período de funcionamento, em maio de 2014. Em relação ao ponto fundamental para Dilma, o de provocar maior comoção nacional, ainda há resistências de alguns integrantes. A crítica da presidente é que, diferentemente das comissões mais exitosas pelo mundo, como as da Argentina e da África do Sul, no Brasil não está se promovendo uma catarse das feridas abertas pela ditadura. De acordo com pessoas próximas à presidente, ela acredita que somente a partir desse processo será possível promover uma verdadeira “cura”.

Dilma alertou que em outros países o sucesso das Comissões deveu-se em grande parte às sessões em que eram ouvidas mães, esposas, filhos e demais familiares das vítimas, em depoimentos que eram tornados públicos, dando-lhes espaço para “exorcizar” seus fantasmas, chorar suas dores e espantar a tristeza. Ela solicitou que nos próximos meses a Comissão adote esse mecanismo. O alerta do Planalto foi reforçado devido a desavenças internas que a Comissão está enfrentando, por conta da condução dos trabalhos. Enquanto uma parte do grupo defende que haja mais envolvimento público, para comover a sociedade em relação aos fatos ocorridos durante a ditadura, outra parcela dos integrantes acredita que o melhor é esperar até o fim dos trabalhos para somente então tornar os resultados conhecidos. De acordo com interlocutores do Planalto, os integrantes chamados pela presidente sinalizaram que poderiam adotar as mudanças.

No último encontro com integrantes do colegiado, Dilma afirmou que avaliaria o apelo do grupo para fazer mudanças na Comissão. Alguns dos membros manifestaram preocupação com as constantes ausências de José Paulo Cavalcanti Filho, consideradas “injustificadas” e, também, com a participação do ministro Gilson Dipp, que desde o ano passado, por questões de saúde, deixou de comparecer às reuniões. Há receio de que o desfalque prejudique o andamento dos trabalhos. “José Paulo Cavalcanti não está envolvido fortemente com a Comissão e em relação ao Gilson Dipp, ele não se apresentou ainda, não sabemos como está seu estado de saúde. A situação está difícil e precisamos de uma deliberação sobre isso. A um ano e um mês do fim dos trabalhos, ainda é provável que uma pessoa se integre perfeitamente ao grupo. Estamos no limite de dar uma definição”, afirmou um integrante do colegiado, que preferiu não se identificar. A presidente teria demonstrado pouca disposição em realizar esse tipo de intervenção, mas prometeu analisar o caso. Dilma teria tentado convencer o grupo de que seria melhor trabalhar com cinco pessoas do que perder tempo e polemizar com eventuais mudanças, e pediu que os integrantes tocassem os trabalhos independentemente do problema, enquanto avalia a substituição.
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