A presidente Dilma
Rousseff, que foi vítima de tortura durante o regime militar, não
esconde sua insatisfação com os resultados alcançados até agora pela
Comissão Nacional da Verdade, por ela instituída a fim de apurar
violações de direitos humanos no país. A presidente, segundo “O Globo”,
chegou a cobrar uma mudança de rumos nos trabalhos do colegiado. Em
conversas recentes com integrantes do grupo, Dilma exigiu resultados
concretos e que sensibilizem a opinião pública, já que pouco do que está
sendo feito vem sendo divulgado. A principal intervenção da presidente
foi no sentido de pedir que a Comissão invista mais nos depoimentos
públicos de familiares, como forma de promover uma ‘catarse nacional’.
Alguns focos de resistência a esse tipo de atuação no âmbito da Comissão
desagradaram ao Palácio do Planalto, que acompanha de perto os
trabalhos. Somente este ano, Dilma já teve reuniões reservadas com
Cláudio Fonteles e com Paulo Sérgio Pinheiro.
O próximo passo da Comissão, que deverá
causar comoção nacional, será atuar junto à Justiça brasileira para que
autorize a exumação do corpo do ex-presidente João Goulart, deposto e
exilado pelo golpe militar. A exumação já foi autorizada pelos
familiares de “Jango”, que acusam os governos militares na América do
Sul, no âmbito da Operação Condor, de terem assassinado o ex-presidente
em 1976. Um juiz uruguaio requisitou a exumação, e o governo brasileiro
concordou automaticamente com o pedido. Integrantes do colegiado
garantiram à presidente que a Comissão já reuniu uma grande quantidade
de informações inéditas, e que terá um material consistente para
apresentar ao fim do período de funcionamento, em maio de 2014. Em
relação ao ponto fundamental para Dilma, o de provocar maior comoção
nacional, ainda há resistências de alguns integrantes. A crítica da
presidente é que, diferentemente das comissões mais exitosas pelo mundo,
como as da Argentina e da África do Sul, no Brasil não está se
promovendo uma catarse das feridas abertas pela ditadura. De acordo com
pessoas próximas à presidente, ela acredita que somente a partir desse
processo será possível promover uma verdadeira “cura”.
Dilma alertou que em outros países o
sucesso das Comissões deveu-se em grande parte às sessões em que eram
ouvidas mães, esposas, filhos e demais familiares das vítimas, em
depoimentos que eram tornados públicos, dando-lhes espaço para
“exorcizar” seus fantasmas, chorar suas dores e espantar a tristeza. Ela
solicitou que nos próximos meses a Comissão adote esse mecanismo. O
alerta do Planalto foi reforçado devido a desavenças internas que a
Comissão está enfrentando, por conta da condução dos trabalhos. Enquanto
uma parte do grupo defende que haja mais envolvimento público, para
comover a sociedade em relação aos fatos ocorridos durante a ditadura,
outra parcela dos integrantes acredita que o melhor é esperar até o fim
dos trabalhos para somente então tornar os resultados conhecidos. De
acordo com interlocutores do Planalto, os integrantes chamados pela
presidente sinalizaram que poderiam adotar as mudanças.
No último encontro com integrantes do
colegiado, Dilma afirmou que avaliaria o apelo do grupo para fazer
mudanças na Comissão. Alguns dos membros manifestaram preocupação com as
constantes ausências de José Paulo Cavalcanti Filho, consideradas
“injustificadas” e, também, com a participação do ministro Gilson Dipp,
que desde o ano passado, por questões de saúde, deixou de comparecer às
reuniões. Há receio de que o desfalque prejudique o andamento dos
trabalhos. “José Paulo Cavalcanti não está envolvido fortemente com a
Comissão e em relação ao Gilson Dipp, ele não se apresentou ainda, não
sabemos como está seu estado de saúde. A situação está difícil e
precisamos de uma deliberação sobre isso. A um ano e um mês do fim dos
trabalhos, ainda é provável que uma pessoa se integre perfeitamente ao
grupo. Estamos no limite de dar uma definição”, afirmou um integrante do
colegiado, que preferiu não se identificar. A presidente teria
demonstrado pouca disposição em realizar esse tipo de intervenção, mas
prometeu analisar o caso. Dilma teria tentado convencer o grupo de que
seria melhor trabalhar com cinco pessoas do que perder tempo e polemizar
com eventuais mudanças, e pediu que os integrantes tocassem os
trabalhos independentemente do problema, enquanto avalia a substituição.

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