Por Nonato Guedes
A Comissão da Verdade da Paraíba, instituída pelo governador Ricardo Coutinho (PSB) para apurar denúncias de violações contra direitos humanos entre 1964 e 1985, aprovou em reunião no começo desta semana o regimento interno, que a partir de agora vai ser condensado, além da definição dos dez grupos de trabalho que vão atuar em diversas áreas, do movimento universitário até à atuação das Ligas Camponesas e de integrantes de outros segmentos que se posicionaram contra a ditadura militar e a favor do regime democrático. A Comissão é presidida pelo professor Paulo Giovani Antonino Nunes, e segundo um dos seus integrantes, o escritor Waldir Porfírio, que atua na assessoria do governador, no Palácio da Redenção, algumas linhas básicas de trabalho estão delineadas, o que pode facilitar a obtenção de resultados favoráveis.
A Comissão examina outros detalhes, como a localização de um prédio para as suas reuniões semanais e mensais, a institucionalização do processo de digitalização de documentos que forem colhidos, juntamente com depoimentos de personagens que participaram de embates políticos no referido político, e a criação de um site, que será discutido com a Secretaria de Comunicação Institucional para divulgação do roteiro das atividades e das conclusões até agora obtidas. Na seqüência, serão formulados os convites a personalidades que já manifestaram interesse em prestar esclarecimentos, e a outras que se dispuserem a contribuir com detalhes valiosos para a reconstituição de fatos decorridos naquela fase. Também está sendo formatada a agenda de viagens por cidades do interior, onde serão catalogadas informações consideradas essenciais ao andamento de investigações.
O historiador Waldir Porfírio afirmou que está mantida a decisão de começar os trabalhos de investigação pelo levantamento acerca da explosão de uma bomba no Cine Teatro Apolo XI, em 1975, na cidade de Cajazeiras. O artefato foi encontrado debaixo da poltrona normalmente reservada ao então bispo da diocese, proprietária do cinema, dom Zacarias Rolim de Moura, que, no encanto, viajara para o Recife a fim de selecionar fitas para exibição no Apolo XI. Houve mortos e feridos e o episódio abalou profundamente a população de Cajazeiras, sem que até hoje tenha aparecido qualquer indício sobre origens, eventuais responsabilidades e providências de punição. A dúvida persiste, com alguns setores atribuindo a facções de direita a prática do atentado e outros responsabilizando facções de esquerda.
Cajazeiras vivia, na época, uma profunda fase de efervescência cultural e de agitação política, como observa o escritor e economista Francisco Sales Cartaxo Rolim, radicado no Recife e autor de um livro que dedica um capítulo à explosão da bomba no Apolo XI. O escritor manifesta, também, sua indignação com o episódio e, mais ainda, quanto à falta de informações a esse respeito. O “RepórterPB” apurou que o ex-vice-prefeito de Cajazeiras, Abdiel de Souza Rolim, poderá ser ouvido pela Comissão da Verdade, diante de uma entrevista que concedeu, aludindo a informações que teriam sido repassadas informalmente pelo general Antonio Bandeira, uma das figuras de projeção do regime militar. Mas o próprio Cartaxo também poderá ser acionado no sentido de colaborar com subsídios que facilitem o trabalho da Comissão da Verdade.
Um outro caso que deverá ser objeto de investigação diz respeito à morte de João Roberto Borges, universitário do terceiro ano de Medicina da Universidade Federal da Paraíba. Natural de Cabedelo, ele era dirigente de instituições estudantis na Paraíba no período da ditadura militar e estava na alça de mira de órgãos que compunham o aparelho de repressão, a partir de denúncias sobre sua militância. João Roberto chegou a participar de um congresso estudantil em Ibiúna, São Paulo, que acabou sendo desbaratado por tropas militares. Mais tarde, foi preso e torturado no Recife. A conselho de um amigo, foi para a região de Catolé do Rocha passar alguns dias e tentar ficar a salvo de represálias. Seu corpo foi encontrado no açude da propriedade em que ele se encontrava hospedado. A versão oficial foi de afogamento, embora João Roberto fosse um exímio nadador. Já há Comissões da Verdade funcionando em oito Estados – quatro criadas pelas Assembléias Legislativas, outras quatro pelos governos. No âmbito federal, a Comissão instituída pela presidente Dilma Rousseff anunciou a intenção de tomar depoimentos do ex-ministro da Fazenda, Delfim Neto, e do ex-governador de São Paulo, Paulo Egydio Martins, sobre possíveis ligações de empresários com o golpe militar e com a manutenção do aparelho repressor, diante de versões de que industriais contribuíram financeiramente com as operações de desarticulação de grupos ativistas de resistência, além de freqüentarem dependências do Dops e da antiga Operação Bandeirantes. A advogada Rosa Maria Cardoso, da Comissão Nacional da Verdade, admitiu, ontem, que algumas pessoas serão convidadas, “polidamente”, para fornecer algumas informações que possam ser essenciais ao desdobramento das investigações. A presidente Dilma Rousseff deixou claro que não pretende interferir nos trabalhos, mas nos bastidores tem insistido para que a Comissão apresente resultados concretos, até como uma satisfação à opinião pública diante dos fatos de repercussão denunciados.

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