O adolescente Marcelo Pesseghini, de 13 anos, apontado
pela polícia como o principal suspeito de matar os pais policiais militares no
início deste mês, na Brasilândia, na Zona Norte de São Paulo, confessou o crime
a amigos do Colégio Stella Rodrigues. Segundo o SPTV desta quarta-feira (21), a
confissão feita aos colegas foi relatada por dois adolescentes ouvidos pelos
investigadores do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) nesta
terça (20). No depoimento à Polícia Civil, um dos colegas disse que Marcelo
perguntou se o amigo sentiria sua falta caso morresse.
Marcelo é o único suspeito até o momento de matar os pais, o sargento da Rota
Luís Pesseghini e a cabo da PM Andréia Regina Bovo Pesseghini, a avó Benedita
de Oliveira Bovo, e a tia-avó Bernadete Oliveira da Silva. A investigação
aponta que, depois, Marcelo foi para a escola com o carro da mãe de madrugada,
assistiu às aulas pela manhã, retornou de carona para a residência da família
na Brasilândia, e se suicidou. O crime teria ocorrido entre a noite do dia 4 e
a madrugada do dia 5 de agosto.
Novas imagens de câmeras de segurança mostram os dois colegas deixando a escola
ao lado de Marcelo, no dia 5 de agosto. Cerca de dez minutos depois, Marcelo
atravessa a rua e pega carona com o pai de um outro amigo para ir para casa.
Na manhã desta quarta-feira, o delegado-geral da Polícia Civil, Maurício
Blazek, disse que, apesar das investigações ainda não terem terminado, todas as
evidências apontam para Marcelo como autor dos crimes. "Infelizmente é uma
situação que nem todos gostariam que fosse realidade [a autoria do garoto no
crime], mas a investigação policial busca a verdade. Nós não buscamos aquilo
que o clamor da sociedade assim entende", afirmou.
"A polícia não pode apontar o que levou o menino a agir assim, mas
trabalhamos com evidências, com o que tem no local do crime. E todas as provas
apontam para isso para o garoto. Os depoimentos também vão na mesma linha. A
polícia não explica o motivo, o papel da polícia é apontar quem fez",
acrescentou Blazek.
'Anormalidade
mental' - O
psiquiatra forense Guido Palomba foi convidado pela Polícia Civil para
acompanhar as investigações. O especialista disse não ter dúvida sobre a
autoria dos crimes. "Possivelmente ele estava num estado de anormalidade
mental, num estado de estreitamento de consciência. Nesse estreitamento de
consciência ele praticou os delitos, pegou o automóvel, dormiu dentro do carro,
foi a aula, saiu da aula e chegou em casa. Quando ele chega em casa a mente
volta para o normal, digamos assim. Ela sai daquele estreitamento, ele tem
consciência daquilo que aconteceu e se suicida", acredita Palomba.
A Polícia Civil apura ainda se mais pessoas sabiam do grupo "Os
Mercenários", que teria sido criado pelo adolescente para matar desafetos
- inclusive familiares. Segundo o delegado Itagiba Franco, do DHPP, três
colegas de escola do garoto disseram em depoimento que o aluno criou o grupo
inspirado no game "Assassins Creed".
Segundo autoridades ligadas à investigação, no grupo "Os Mercenários"
havia uma lista com nomes de desafetos que deveriam ser mortos. Um dos nomes
seria o da diretora do Colégio Stella Rodrigues, Maristela Rodrigues.
"Eram nomes de desafetos. E o objetivo seria assassinar as pessoas",
disse Franco, que não deu detalhes sobre o funcionamento do grupo. O delegado
voltou a dizer que o único suspeito continua sendo Marcelo, mas que é preciso
aguardar os laudos técnicos, que devem ficar prontos no fim do mês.
De acordo com relatos dos amigos de Marcelo, o grupo se inspirava no personagem
do jogo "Assassins Creed". Ganhariam pontos quem matasse parentes num
paralelo com o game, que dá pontos ao jogador. Para os colegas, no entanto, o
grupo seria uma diversão e não havia intenção de ser colocado em prática.
A influência do jogo de videogame foi citada também pelo advogado Arles
Gonçalves Júnior, presidente da comissão de segurança da Ordem dos Advogados do
Brasil de São Paulo (OAB-SP). Na sexta-feira (16), ele afirmou que os
depoimentos prestados revelam que o menino apresentou uma mudança de
comportamento influenciada pelo jogo de videogame. “Todos os depoimentos chamam
a atenção, cada um em determinado momento, como se fosse um quebra-cabeças”,
disse. Das 31 pessoas ouvidas pela polícia, seis eram amigos de Marcelo
Pesseghini, de acordo com o advogado da OAB, que acompanha a investigação.
Marcelo usava a imagem de um assassino do jogo no seu perfil do Facebook. O
suspeito trocou a foto do perfil no dia 5 de julho. Esta foi a última
atualização de Marcelo na rede social.
No dia 8 deste mês, a desenvolvedora de games Ubisoft, criadora do jogo
Assassin's Creed, divulgou nota de repúdio à ligação feita entre o jogo e o
assassinato da família Pesseghini. "Em nenhum estudo até agora realizado
há consenso sobre a associação entre a violência e obras de ficção, incluindo
livros, séries de televisão, filmes e jogos. É uma falácia associar um objeto
de entretenimento de milhões de pessoas, todos os dias, em todo o mundo, com
ações individuais e que ainda estão sendo esclarecidas", dizia a nota
divulgada pela companhia.
Teste - Peritos fizeram na madrugada de
segunda-feira (19) testes com tiros dentro da casa onde a família morava, na
Rua Dom Sebastião. Dois aparelhos que medem ruído foram instalados em casas
vizinhas. Vários disparos foram dados com uma arma semelhante à utilizada no
crime - uma pistola .40. Um perito constatou que, de fato, os disparos podem
ter sido ouvidos pelos vizinhos. Jornalistas tiveram que permanecer à
distância.
G1
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