segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Ministério de Minas e Energia foi alvo de espionagem do Canadá

07/10/2013

Do G1, com informações do Fantástico

Uma apresentação da Agência Canadense de Segurança em Comunicação (CSEC, na sigla em inglês) obtida com exclusividade pelo Fantástico mostra que o Ministério de Minas e Energia foi alvo de espionagem. Na mira do órgão estava a rede de comunicações da pasta – telefonemas, e-mails e uso da internet –, que, segundo o documento, foi mapeada em detalhes (veja a reportagem completa no vídeo ao lado).
A apresentação foi entregue por Edward Snowden – ex-analista contratado da Agência Nacional de Segurança (NSA) dos EUA, que revelou as ações de inteligência americana e hoje está exilado na Rússia –, ao jornalista americano Glenn Greenwald, coautor da reportagem junto com Sônia Bridi.

arte cronologia snowden espionagem 30/9 (Foto: 1)
Ela mostra como funciona um programa de computador, chamado Olympia, que faz um mapeamento das comunicações telefônicas e de computador do ministério, incluindo e-mails. O objetivo é descobrir os contatos realizados para outros órgãos, dentro e fora do Brasil, além de empresas como a Petrobras e aEletrobrás.

Há, por exemplo, registro de ligações telefônicas feitas do Ministério para outros países, como o Equador, com chamadas frequentes para a Organização Latino-Americana de Energia (Olade). No Peru, o número chamado é o da Embaixada do Brasil. Pela internet, a agência canadense acessou a comunicação entre os computadores do ministério e computadores de países do Oriente Médio, da África do Sul e até do próprio Canadá.

A ferramenta também identificou números de celulares, registro dos chips e até marcas e modelos dos aparelhos. Um deles é usado pelo departamento internacional do Ministério. Um dos usuários identificados, o embaixador Paulo Cordeiro – que era baseado no Canadá e hoje trabalha no departamento de Oriente Médio do Ministério das Relações Exteriores – não quis dar entrevista.
A apresentação canadense foi exibida em junho de 2012 numa conferência em junho de 2012 que reuniu  analistas ligados a agências de espionagem de cinco países, do grupo conhecido como Five Eyes (Cinco Olhos, em português): Estados Unidos, Inglaterra, Canadá, Austrália e Nova Zelândia.
Não há indicação de que o conteúdo das comunicações tenha sido acessado, só quem falou com quem, quando, onde e como. A mesma apresentação, no entanto, sugere ao final que seja realizada também uma espionagem conhecida como "man on the side" (homem ao lado), em que toda informação que entra e sai da rede pode ser copiada.
Informações estratégicas
As comunicações do Ministério de Minas e Energia são armazenadas em máquinas localizadas numa sala que guarda arquivos com todas as informações sobre a energia e os recursos minerais do país. A sala, chamada de cofre, tem paredes de aço, e é à prova de desastres. Pelos servidores, trafegam comunicações em redes privadas criptografadas, que são protegidas por uma série de códigos.

Um dos servidores, por exemplo, é usado pelo ministério para falar com a Agência Nacional de Petróleo (ANP), a Petrobras, a Eletrobrás, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) e até com a presidente Dilma Rousseff para conversas estratégias de governo.
As informações podem servir a empresas que concorram nesses leilões. Eu acho isso gravíssimo. Ela sabe o que vai acontecer antecipadamente. Isso é um jogo de bilhões de dólares, coisa pouca, não"
Pinguelli Rosa,
ex-presidente da Eletrobrás
De cada quatro grandes empresas de mineração do mundo, três têm sede no Canadá. As principais informações sobre reservas minerais brasileiras são públicas. A estrutura do Ministério, no entanto, guarda informações estratégicas, como informações sobre leilões de blocos de exploração e produção de petróleo da camada pré-sal, além de leilões de construção de usinas de energia.
"As informações podem servir a empresas que concorram nesses leilões. Eu acho isso gravíssimo. Ela sabe o que vai acontecer antecipadamente. Isso é um jogo de bilhões de dólares, coisa pouca, não", afirma o ex-presidente da Eletrobrás Pinguelli Rosa.
Os documentos de Snowden mostram que tanto Dilma como a Petrobras podem ter sido espionados indiretamente com o acesso aos servidores do ministério. Em setembro, o Fantásticomostrou que a estatal, e também a presidente e seus assessores, estavam entre os alvos da inteligência americana. No mês passado, em discurso na Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, Dilma condenou as ações de espionagem dos EUA, dizendo que elas “ferem” o direito internacional e “afrontam” os princípios que regem a relação entre os países.
Ainda neste domingo, pela manhã, ela disse, pelo Twitter, que o Congresso deve votar nas próximas semanas a proposta de Marco Civil da Internet, lei para proteger as comunicações no Brasil, que, segundo ela, "irá ampliar a proteção da privacidade dos brasileiros".
Pela rede social, ela também disse que assim que o projeto for aprovado, enviará à ONU uma proposta brasileira de um marco civil internacional.
Ministro lamenta
Na sexta-feira (4), o ministro Edison Lobão comentou o conteúdo da reportagem. Questionado sobre como reage aos documentos, ele disse: "Eu acho que configura um fato grave que merece repúdio. Aliás a presidenta Dilma já o fez amplamente na ONU", disse.

Lobão diz que usa videconferências para conversar não só com a presidente, mas também com outras autoridades. "Lamento que tudo esteja sendo exposto a este tipo de espionagem", afirmou.
Eu acho que configura um fato grave que merece repúdio. Aliás a presidenta Dilma já o fez amplamente na ONU [...] Lamento que tudo esteja sendo exposto a este tipo de espionagem"
Edison Lobão,
ministro de Minas e Energia
O ministro diz que o Canadá "tem interesse no Brasil, sobretudo nesse setor mineral". "Há muitas empresas canadenses que manifestam interesse no país. Se daí vai o interesse em espionagem pra servir empresarialmente a determinados grupos, eu não posso dizer".
"Nós estamos diante, evidentemente, de um sistema de espionagem internacional", afirmou. Questionado sobre qual prejuízo econômico o Brasil pode sofrer com a espionagem, Lobão disse que "isso não foi avaliado ainda. "Isso é uma questão que, ao longo do tempo, virá à tona".
A Embaixada do Canadá em Brasília disse ao Fantástico que não comenta assuntos de inteligência e segurança. A CSEC disse que não comenta a atividades de inteligência no exterior.
Em nota, a NSA afirma que não vai comentar publicamente supostas atividades de inteligência e que o tipo de informação que os Estados Unidos coletam no exterior é o mesmo obtido por todos os países. A nota diz ainda que os Estados Unidos estão revisando os meios de obter inteligência, para equilibrar privacidade e segurança dos cidadãos americanos e aliados.
cancaonoticias com G1

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