15/12/2013
O drama da seca continua
penalizando a Zona Rural
de praticamente todas as regiões da Paraíba. No Sertão, famílias inteiras vivem
uma situação angustiante, que parece não ter fim. Diariamente, é comum
encontrar nas estradas, entre as comunidades rurais,
pessoas com baldes, latas e tambores à procura de água para beber, cozinhar e
lavar roupa.
A falta de água e alimento se junta à carência de atenção dos
governantes, levando moradores das áreas mais castigadas ao desabafo e a
desesperança. "Só queria que Deus olhasse pra nós. Ninguém olha pra nós.
Ninguém se lembra da gente. A gente vive abandonado, a gente vive esquecido
demais", Maria Aparecida Pedro da Silva. Ela tem oito filhos e tem que
caminhar cerca de 2 quilômetros para encontrar água. Para tomar banho e lavar
roupas algumas famílias apelam para a ajuda de parentes e amigos que moram na
cidade.
A água para beber, eles precisam andar no asfalto por quilômetros em
busca de um cacimbão. "Seu moço, anote aí no seu caderno o seguinte: aqui
a gente é esquecido, excluído. Ninguém tem dó da gente. A gente é pobre, mas é
gente, tem o mesmo direito que os outros", pediu dona Maria Costa,
agricultora que faz o mesmo percurso em busca de água. Os desabafos foram feitos
ao padre Djacy Brasileiro por sitiantes da comunidade Lagoinha, localizado no
município de São José de Piranhas (localizada no Sertão da Paraíba, a 503
quilômetros de João Pessoa).
O padre, ao encontrar os moradores percorrendo
longas estradas, às vezes sem saber onde encontrar, ouve os desabafos e, sem
ter como prestar ajuda, sofre junto com as vítimas da seca. São depoimentos que
o padre Djacy, pároco do município de Santa Cruz, também no Sertão a 445
quilômetros da Capital paraibana, ouve diariamente nas peregrinações que faz
com intuito de divulgar a situação das famílias sertanejas que sofrem com o
problema cíclico da falta d'água provocada pela escassez das chuvas e de ações
políticas contínuas que abasteçam os municípios nos períodos críticos. Outros
depoimentos feitos por moradores da comunidade Lagoinha divulgados essa semana
por padre Djacy na página dele do Facebook mostram o drama em busca de água.
"Padre, a gente passa o dia carregando água.
A nossa situação é triste,
muito triste. Nossa vida é carregar água", disse seu Antônio Gomes.
"A gente sai pela cidade de São José de Piranhas pedindo água para lavar
roupas e tomar banho. Assim é nossa vida sofrida. É muito sofrimento. Só Deus
olha pra nós e ninguém mais". Depoimentos que emocionam o padre que
continua clamando por atenção e por decisões políticas capazes de acabar ou
pelo menos minimizar todo esse sofrimento.
No município de São José de
Piranhas, o açude que abastece a cidade tem capacidade para mais de 3 milhões
de metros cúbicos de água e está com apenas 16% de sua capacidade, conforme
dados divulgado pela página na web da Agência Executiva de Gestão das Águas. No
posto da Companhia Estadual de Gestão das Águas de São José de Piranhas, a
informação prestada foi de que a zona urbana ainda está sendo abastecida, mas a
situação é preocupante na Zona Rural, em que somente cinco carros pipas estão
abastecendo as comunidades.
A cidade de São José de Piranhas tem
aproximadamente 21 mil de habitantes e as chuvas que caíram no ano passado não
foram insuficientes para encher o açude São José e os pequenos mananciais das
áreas rurais. Nessas áreas, a população continua com as longas caminhadas em
busca de água, utilizando latas e carroças em busca da cidade, local que ainda
dispõe do produto, mas que tem prazo para acabar se não chover nos próximos
meses. Além da falta d'água, a seca também traz com ela a fome. Sem chuvas, não
há colheitas nos pequenos roçados e a população mais carente fica sem recursos
para comprar os alimentos da cesta básica.
A carência é tanta que sitiantes
declaram como único recurso para sobreviver o dinheiro do programa bolsa
família do governo federal."Seu Padre, a verdade a gente tem que falar.
Vou falar uma coisa, lá em casa, a nossa sorte é o bolsa família. Se não fosse
o bolsa família, a gente já tava era morto. E ainda tem gente 'granfina' que é
contra o bolsa família", disse dona Maria Aparecida. E falam com
consciência dos governantes."Padre, tá pensando que prefeito, vereador,
governador, deputado, seja quem for, anda nas nossas casas pra saber da nossa
situação? Esse povo só aparece nas eleições. A gente não tem valor de nada pra
esse povo", desabafa a mulher.
Padre Djacy divulga a situação dos
sertanejos em seu perfis nas redes sociais, numa série de registros que denominou
'Caminhos da Sede'. O Portal Correio acompanha, com exclusividade, o roteiro
feito pelo religioso. O pároco de Santa Cruz e sua luta ficaram conhecidos
nacionalmente em 2011, quando ele foi à Brasília com uma cruz de lata e
permaneceu de plantão em frente ao Congresso Nacional para chamar a atenção dos
políticos e do povo brasileiro.
Foha
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