12/01/2015
O ano de 2014 terminou com 19 homossexuais
assassinados na Paraíba. A estatística é mais chocante quando calculamos
que são quase dois homicídios por mês, fundamentados pela intolerância à
diversidade.
Os
dados constam no Relatório de Assassinatos Contra LGBT na Paraíba,
elaborado pelo movimento LGBT (sob a coordenação do Movimento Espírito
Lilás - MEL) com o apoio do Núcleo de Extensão Popular Flor de Mandacaru
da Universidade Federal da Paraíba, a Delegacia Especializada Contra
Crimes Homofóbicos da Paraíba e a Secretaria da Mulher e da Diversidade
Humana do Estado da Paraíba.
Em
2013, o estado amargou 21 assassinatos contra homossexuais, segundo o
mesmo relatório. A metodologia utilizada para a elaboração do documento
foi baseada em consultas a notícias veiculadas pela mídia e de relatos
de familiares e/ou conhecidos das vítimas. A partir disso, o movimento
acionava a Delegacia Especializada Contra Crimes Homofóbicos para que
requisitasse informações à Delegacia competente a respeito da apuração
do caso, material complementar ao preenchimento de ficha cadastral
atribuída a cada uma das vítimas, com seus dados pessoais e relato do
crime. Por fim, verificou-se a apuração dos homicídios pelo Judiciário
quanto aos crimes cujo Inquérito Policial havia sido concluído com o
oferecimento da denúncia.
Segundo
o Grupo Gay da Bahia (GGB), em 2012 foram registrados 338 assassinatos
no Brasil motivados por LGBTfobia. Em 2013, morreram 312 LGBTs. Isso
significa que no ano de 2013, a cada 28 horas, um/a LGBT morreu vítima
de homofobia em nosso país.
Segundo
o MEL, mais alarmantes se tornam esses números quando se analisam as
características destes crimes e como se deram estas mortes. Na Paraíba,
em 2013, Manoel dos Santos foi assassinado com 106 facadas, sendo 35
delas no ânus. Em outra ocorrência, Wanderson Silva foi morto com um
tiro na cabeça em 2014, mas seu cabelo foi raspado e posto dentro de um
saco plástico, juntamente com o enchimento que usava no peito.
“São
claras as conexões entre violência e sexualidade na feitura desses
crimes; não foi o bastante o ato de assassinar, mas também marcar nos
corpos os símbolos de uma sexualidade interditada (o ânus; os pretensos
seios e os cabelos que “afeminavam” um corpo “masculino”)”, explica o
MEL, em seu documento.
A
elaboração de relatórios buscando evidenciar a violência contra LGBT
existe há algumas décadas no Brasil. Em 1980, o Grupo Gay da Bahia
(GGB), um dos principais grupos brasileiros em defesa dos direitos da
Comunidade LGBT, utilizou um instrumento de luta que posteriormente
seria adotado por diversas organizações similares no Brasil: a
documentação das informações sobre violência contra homossexuais
(especialmente os assassinatos), a partir de notícias veiculadas pela
mídia e relatos oferecidos por parentes das vítimas e membros do
movimento.
Na
Paraíba, o Movimento do Espírito Lilás (MEL), por volta da década de
1990, passou também a sistematizar estas informações, elaborando
relatórios dos assassinatos contra a população LGBT. Esses relatórios
não são só uma estratégia do movimento LGBT brasileiro, já que o
movimento de mulheres e o movimento negro também realizam a contagem de
seus/suas mortos/as. O esforço do movimento LGBT na sistematização
destes dados se dá na busca de uma postura mais pragmática de luta
voltada à garantia de direitos e à denúncia do universo de violência
enfrentada por estes sujeitos.
“O
termo LGBTfobia é um termo que vem contestar o uso do termo homofobia
para caracterizar todas as violências e as opressões vivenciadas pelos
sujeitos LGBT em razão da vivência da sexualidade fora dos padrões
heteronormativos. Tratam-se de lesbofobia, homofobia, bifobia e
transfobia; posturas opressoras que se encontram em muitos aspectos, mas
que guardam também suas especificidades a depender do sujeito contra a
qual se manifestam. “Lésbicas sofrem lesbofobia, determinado tipo de
violência, por serem lésbicas e mulheres e estarem, antes de tudo,
submetidas ao machismo e ao patriarcado, como forma de dominação de seus
corpos” e de sua sexualidade. Elas acabam sofrendo violências
específicas como “estupros corretivos” como forma de “corrigir” sua
sexualidade. “No caso de homossexuais, as homofobias se dão por motivos
também ímpares, que, de certo modo, são perpassados pela lógica
autoritária de machistas” que rejeitam outras formas de viver a
sexualidade”, explica o relatório.
“Em
relação às travestis e às pessoas trans, estas têm agravantes e são
vítimas de transfobia porque, principalmente, não têm identidade de
gênero condizente com seus sexos biológicos, rompem com a lógica de
normalidade heterossexual e, sobretudo, são excluídas e marginalizadas
nos espaços públicos, quando são femininas (é a identidade de gênero das
travestis e das mulheres lésbicas, não coincidentemente ambas são
rejeitadas e subjugadas por homens) e quando são masculinizadas (homens
transexuais – que nasceram com sexo feminino, mas não se identificam com
ele – sofrem com estupros corretivos e invisibilidades sociais porque,
afinal, fogem à regra e, antes, tiveram formação de vida de mulheres,
consideradas “sexo de segunda categoria” por homens que as controlam,
dominam, exploram e mantém sob suas ordens)”, completa o documento.
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