A foto que está sendo divulgada como se eu tivesse ido na semana passada na delegacia do Varadouro é parte de uma armação extremamente sórdida e, no mínimo, mentirosa, pois trata-se de registro de algum paparazzi (pago pelo interessado em me prejudicar) feito há quase três semanas, após ter recebido notificação para comparecer na Central de polícia de repressão a entorpecentes (que ironia, logo eu, que nunca sequer experimentei cigarro comum, que dirá droga ilícita), especificamente no gabinete da 1ª superintendência regional de polícia civil. O motivo? “Prestar esclarecimento sobre ocorrência em 07.02.2012, quando houve crime tendo como vítima a pessoa de Bruno Ernesto do Rego Moraes”. Trata-se do assassinato de Bruno Ernesto, um dos responsáveis pela instalação do Jampa Digital, conforme reportagem abaixo, entre tantas outras veiculadas sobre o assunto:
Pois bem, no dia seguinte à notificação, na hora e dia marcado (19 de maio, às 10h), lá estava eu, sozinha, adentrando a 5ª delegacia de policia civil, movida por curiosidade e cumprimento do dever. Na sala escolhida, estavam o escrivão Jefson Sobreira Bezerra, o delegado Everaldo Barbosa de Medeiros Filho e o advogado Fábio Brito Ferreira - OAB/PB 9672. Para início de conversa, o delegado logo explicou a razão de estarmos ali, alegando haver “UMA REPRESENTAÇÃO DO GOVERNADOR, inclusive o advogado dele está aqui...” e perguntou se eu queria ver o documento, cujo qual não fiz questão de ler já que eu não dispunha de muito tempo, nem de advogado naquela situação – lembrando que, mesmo estando com uma agenda cheia naquela ocasião, tive que encaixar este compromisso de última hora. O referido delegado justificou o patrão dele, que era “só para prestar algum esclarecimento e para saber se tem algo novo sobre esse caso para trazer à tona aqui”.
Fiquei me questionando sobre o porquê de um governador se preocupar tanto com um assassinato cujo inquérito foi concluído por este mesmo delegado nomeado por ele em 24 de julho de 2014 - sim, em plena campanha eleitoral. Ora, o delegado é pessoa de confiança dele, pois saiu do interior da Paraíba para o cargo de adjunto da delegacia de homicídios onde, por sorte ou azar, era o plantonista no dia do crime bárbaro contra o diretor de Infraestrutura e Suporte da Secretaria de Planejamento de João Pessoa, o Bruno, jovem brilhante, esperto, capacitado, homem de família. Vocês acham que, se eu soubesse de “algo novo”, entregaria justamente aos responsáveis pela finalização da investigação daquela forma, no mínimo, estarrecedora? Claro que exerci meu direito de permanência em silêncio, afinal, estamos vivendo em um estado e em uma nação onde a impunidade é escancarada e normalizada. Por este motivo, qualquer pessoa provida de inteligência raciocina que, eu tendo um filho para criar, jamais me arriscaria ao “entregar possíveis indiretos” de um assassinato que, mesmo com todas as características de execução e com confissão da encomenda do ato criminoso pelos condenados, foi concluído como latrocínio.
Então, deduzi que se tratava de mera ação para me constranger, intimidar, pressionar ou qualquer coisa do tipo. Algo que também não me afetaria, pois quem me conhece sabe que situações desse tipo não me abalam em absolutamente nada. Mas me indignou a manobra de um ex-marido em promover a ida da mãe de seu filho para um local como aquele, embora eu, como jornalista, estive inúmeras vezes em cadeias para reportagens nas afiliadas da Globo em que trabalhei e, do mesmo modo, como primeira dama, estive em inaugurações de delegacias e em presídios lutando por políticas públicas para apenados. Sempre fui movida por justiça e me revolto com injustiças de maneira geral, contra quem for.
O fato é que, creio agora que só queriam me repreender, antecipando-se à ação impetrada pela família no Fórum Criminal e ainda fazer uso da situação em tentativa para me descredibilizar. Visto que sou da imprensa e o referido delegado concedeu entrevista a um site daqui (“o Portal MaisPB teve acesso ao conteúdo do depoimento da jornalista ao delegado Everaldo Barbosa de Medeiros, responsável pela investigação”), tomo a mesma liberdade em revelar tal depoimento, que em dado momento o delegado se gaba de ter amparo jurídico no inquérito sentenciado aqui no estado. Desta forma, seria pertinente, já que o Jampa Digital é alvo de novo processo no Ministério Público Federal, o caso de Bruno Ernesto estar incluso também no inquérito policial que foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal, pois o mesmo era o diretor de Infraestrutura e Suporte da Secretaria de Planejamento de João Pessoa, cuja secretária era a atual deputada estadual Estelizabel Bezerra, que deveria se pronunciar sobre o porquê do projeto não ter funcionado mesmo após ter consumido milhões de reais. Outro que deveria dar explicações é o atual procurador do Estado, Gilberto Carneiro, que na época da concepção do projeto era o secretário de Administração da Prefeitura e foi quem assinou o contrato juntamente com a ex-secretária de Planejamento, “Estela”.
O principal responsável, o ex-prefeito e atual governador Ricardo Coutinho também deve explicações à sociedade já que, perante ao judiciário, ele goza da prerrogativa da imunidade e garantia do foro privilegiado. A investigação da Polícia Federal sobre indícios de prática de improbidade administrativa que até foi alvo de denúncia do programa Fantástico da Rede Globo, com várias repercussões em outras emissoras e veículos, concluiu superfaturamento de um projeto que sequer funcionava e, mesmo assim, consumiu milhões de reais. O valor total do projeto era de R$ 39 milhões. A Polícia Federal indiciou 23 pessoas por supostas irregularidades no Jampa Digital e concluiu que recursos do projeto foram desviados para financiar a campanha do atual governador da Paraíba, Ricardo Coutinho.
Voltando ao fato da minha primeira intimação à delegacia, agradeço publicamente à mãe de Bruno Ernesto, Inês Ernesto, que entrou em contato por telefone com um blog para me defender da publicação encomendada contra mim. Os três sites que apresentaram as informações distorcidas do depoimento e da posição da família da vítima fatal serão responsabilizados em ações de danos. Infelizmente ainda há o que ser elucidado e isso, lamentavelmente, não depende de mim.
Após este meu esclarecimento, quero permanecer no meu direito ao silêncio em relação ao Jampa Digital e ao assassinato de Bruno Ernesto. Enquanto as investigações permanecerem nas instâncias condicionadas ao governo, nada mudará. Um governador exerce influência em vários seguimentos, do executivo ao judiciário e eu só quero estar desvinculada dele e dos poderes. Minhas escolhas refletem exatamente o meu distanciamento dessas pessoas, desse meio. Apesar de ter passado por violência doméstica e ainda sofrer violência moral, psicológica, patrimonial, nunca levei meu ex-marido a uma delegacia, tampouco na condição de pai que sequer paga pensão do próprio filho. Só anseio por paz no auge dos meus 31 anos - por coincidência, mesma idade de Bruno quando executado.
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