sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Desafios éticos da fé midiatizada

 23.01.2026


Segundo os Evangelhos, Jesus advertiu os fariseus: “Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro”. Desde a Antiguidade, contudo, o dinheiro tem sido elevado por muitos à condição de finalidade suprema da existência humana. No mundo contemporâneo, impulsionado pela globalização econômica e pela lógica neoliberal, passou a ocupar um lugar quase sagrado, sendo apresentado como fonte de realização pessoal e felicidade.

Esse fenômeno torna-se especialmente preocupante quando se observa a atuação de líderes religiosos que, nos púlpitos e nos meios de comunicação, conferem maior centralidade a mensagens de cunho financeiro do que às pregações evangélicas propriamente ditas. Nesses casos, a fé transforma-se em mercadoria, e a espiritualidade submete-se à lógica do mercado.

Nas últimas décadas, diversas igrejas passaram a atuar intensamente por meio da chamada mídia religiosa. A evangelização em larga escala converteu-se, em alguns casos, em empreendimento empresarial, no qual figuras carismáticas ocupam os holofotes, associando religião, fama, poder e prosperidade material. Surgem, assim, os chamados tele-evangelistas, que frequentemente flexibilizam princípios éticos para atender a interesses institucionais ou pessoais.

Nesse contexto, ganha espaço a chamada Teologia da Prosperidade, segundo a qual a oferta financeira à igreja seria proporcional às bênçãos materiais recebidas pelo fiel. Tal concepção, inspirada em valores típicos do capitalismo contemporâneo, associa fé à acumulação ilimitada de riquezas, deslocando o foco do Evangelho de princípios como solidariedade, humildade e justiça social.

É necessário, contudo, evitar generalizações. Muitas igrejas evangélicas desenvolvem seu trabalho com seriedade, integridade e compromisso social, rejeitando a teologia da prosperidade por considerá-la uma distorção das Escrituras, frequentemente utilizada para explorar pessoas em situação de vulnerabilidade, às quais se atribuem dificuldades materiais como suposta consequência da falta de fé.

Quando a idolatria ao dinheiro se impõe no campo religioso, produz-se uma perversão de grandes proporções. A fé passa a ser instrumentalizada como mecanismo de arrecadação, enquanto líderes acumulam patrimônio e poder, em contraste com a realidade vivida por grande parte de seus seguidores. Estudos e reportagens, inclusive de veículos internacionais, já apontaram a concentração de riqueza entre alguns dos mais conhecidos pregadores brasileiros, fenômeno que suscita debates sobre ética, transparência e a finalidade das instituições religiosas.

Paralelamente, observa-se a consolidação de um novo padrão de religiosidade, marcado pela combinação de espetáculo midiático, entretenimento e consumo, em detrimento dos ensinamentos cristãos tradicionais. Amparados por discursos moralizantes, alguns líderes religiosos passaram a atuar diretamente na arena política, apresentando-se como defensores da ordem e dos valores morais.

Na prática, porém, essa aproximação entre religião e política tem suscitado questionamentos. Igrejas transformam-se, por vezes, em espaços de mobilização eleitoral, e fiéis em bases de apoio político. O crescimento desse ativismo religioso-midiático contribui para a formação de grupos de pressão junto aos poderes públicos, influenciando debates legislativos e políticas governamentais, especialmente em temas relacionados aos direitos de minorias sociais.

A presença recorrente de linguagem religiosa no discurso político convida à reflexão sobre os limites entre fé e poder. Trata-se de um debate necessário em sociedades democráticas, que exige cuidado para que a religião não seja utilizada como instrumento de dominação política, nem a política se aproprie da fé para fins alheios ao bem comum.


Rui Leitão

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