15/04/2013
Por Nonato Guedes
Especializadas em prender empresários, políticos e até servidores da própria instituição, as operações da Polícia Federal contra diferentes modalidades de crimes despertam a curiosidade pública não só pelo impacto que produzem, mas pela criatividade com que são denominadas. Quem não fica impressionado com nomes como Satiagraha, Anaconda, Sanguessuga, Amalteia, Kuarup, Hiena, Galácticos, Hurricane? Os mais eruditos dominam o conhecimento dessas referências e fazem, com facilidade, uma associação entre os fins a que se destinam as operações e as denominações que lhes foram atribuídas. O grande público, todavia, fica apenas deslumbrado com o que a revista “Piauí”, editada no Rio de Janeiro, qualificou em matéria de “estalos lítero-policiais”, enxertando o subtítulo: “Um nome vale por milhões”.
Quem é o autor dos nomes de fantasia que revestem operações de busca e apreensão e que tanto podem refletir elementos da mitologia como expressões da cultura popular? Acrescente-se que até desenhos animados inspiram tais investidas, como menciona a publicação “Mundo Estranho”, da Editora Abril, com versões impressa e on-line. Para todos os efeitos, o batismo é dado por delegados que comandam as expedições por qualquer parte do território nacional. A escolha aconteceria após várias sugestões do delegado responsável, a quem cabe a palavra final, e de outros diretores da Polícia Federal. Mas talvez as coisas não aconteçam exatamente assim. Todos os indícios levam à identificação de Zulmar Pimentel dos Santos, diretor executivo da PF, que acabou sendo afastado das funções, ironicamente, numa dessas operações, sendo convidado, depois, para assumir a secretaria de Segurança do Amazonas. Zulmar foi fisgado pela operação “Navalha”, que remeteu cerca de meia centena de figurões para a cadeia, entre ex-governadores, lobistas, funcionários públicos e empreiteiros, acusados de desvios de verbas públicas. Zulmar teria vazado informações sigilosas para colegas envolvidos com a corrupção, tese que ele desmentiu mas que, ainda assim, custou-lhe o cargo, em meio a disputas internas pelo poder na Polícia Federal.
Natural do Amazonas, mas com uma carreira espalhada por outras regiões como o próprio Nordeste, Zulmar passou a ser assediado com sugestões de nomes bíblicos depois que auxiliares descobriram que ele é evangélico. E assim é que algumas operações seguiram esse viés. A primeira operação batizada, não por acaso, foi a Arca de Noé, que em 2002 prendeu sete pessoas, envolvidas com o jogo do bicho no Mato Grosso. A operação Navalha, que vitimou o próprio Zulmar, tinha um significado óbvio para qualquer cidadão: cortar na própria carne e resultou na prisão de agentes policiais corruptos. Embora fontes da Polícia Federal garantam que não há jogada de marketing, na hora em que é dada a publicidade às prisões, a estranheza do nome causa impacto psicológico favorável, na própria sociedade. O atual superintendente da Polícia Federal na Paraíba, Marcelo Diniz Cordeiro, seguindo a lei do silêncio em vigor no órgão, disse a este repórter não ter ideia de quem seria o mentor das denominações, atribuindo-as a delegados que cuidam das investigações de cada caso. No período em que está na Paraíba, Marcelo Diniz é apenas cientificado do “código” das operações quando elas estão em curso e procura fazer sua parte. A Paraíba foi foco de investidas que se espraiaram por outros Estados, como a Pão e Circo, que apurava desvio de verbas de prefeituras com festas juninas, a Amalteia, Logoff, Bom Sucesso, Sinistro e Squadre. Ficou de fora das operações desta semana, intituladas “Máscara Negra”, que identificaram desvios de recursos públicos provavelmente superiores a R$ 1 bilhão e resultaram na prisão temporária de 92 pessoas, além de provocar uma acirrada controvérsia com o Ministério Público, que a teria idealizado como forma de pressionar o Congresso a não aprovar a PEC 37, em tramitação no Congresso, fixando que os poderes investigatórios pertençam exclusivamente à Polícia. Os Ministérios Públicos, Federal e Estadual, são contrários à Proposta de Emenda Constitucional e têm promovido debates em todo o país para derrubá-la na votação no Congresso.
Ninfa que cuidava de Zeus
A operação Amalteia, que desmantelou um esquema criminoso de desvio de recursos do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, como parte do programa do Leite, em parceria com governos estaduais, teria sido inspirada na personagem da mitologia grega ligada a Zeus, ou como ninfa que cuidava da divindade ou como cabra que amamentava Zeus. Em 2012, conforme dados do site da Polícia Federal, foram expedidos 1.660 mandatos de prisão, e este ano expediu-se mais de uma centena de mandados em operações distintas. O que sugere ao caro leitor a operação Oráculo? Tratava de fraude em concursos públicos e em vestibulares. E a Eros? Quem lembrou o Viagra, aproximou-se. A Eros foi montada para coibir a venda ilegal de medicamentos destinados à correção de disfunção erétil. Mas, o que seria a operação Toupeira? É expressão que comporta vários significados, como, por exemplo, construção de túneis para roubo de bancos. Foi justamente isso que inspirou a denominação. A Sanguessuga tornou-se notória e envolveu políticos paraibanos que se disseram inocentes. Tratava do esquema da máfia das ambulâncias, tendo como protagonistas os irmãos Vedoin, da Planam. O ex-senador Ney Suassuna, o deputado federal Benjamin Maranhão e o ex-senador Marcondes Gadelha foram citados, sem provas mais contundentes. Eles, de fato, foram procurados para “entrar no esquema”, mas não ficou comprovado terminantemente que tivessem utilizado recursos públicos em transações com a Planam.
Esta é fácil para os viciados em internet: operação Ctrl + Alt = Del. Visava apurar roubos de senhas bancárias por meio da ação de hackers que acessavam, com engenhosidade, ou nem tanto, dados pessoais de usuários cadastrados. Em fevereiro de 2005 foi deflagrada a operação Big Brother, alcançando pessoas que fraudavam documentos para obter pagamentos de títulos da dívida pública da Petrobras e Eletrobrás. Bingo! As fraudes estavam relacionadas ao BB (Banco do Brasil), que compartilha iniciais com o reality show da Rede Globo, apresentado pelo jornalista Pedro Bial. Consta que Zulmar Pimentel dos Santos havia se entediado com a fase burocrática do trabalho desenvolvido à frente da Polícia Federal e buscava motivação para se manter no posto. Incomodava-lhe, também, a dificuldade de pegar acusados com a mão na massa. Foi quando descobriu que a Constituição permitia “campanas” em casos excepcionais, para desbaratamento de ações do crime organizado. Estava dado o mote para que ele adquirisse mais fôlego na rotina policial. Passou a requerer mandados judiciais que autorizavam até tocaias e o uso de algemas contra eventuais transgressores. No caso das algemas, o superintendente da Polícia Federal na Paraíba afirma que as interpretações divergem. Há quem considere que elas podem conter elementos de alta periculosidade, tentados a fugir no momento da abordagem. Mas a utilização não é corriqueira. Certas operações são desdobramentos de outras que já estavam em curso.
Uma situação emblemática aconteceu em relação à Paraíba. O delegado baseado em Brasília, responsável pela apuração de cobrança de preços exorbitantes de combustíveis, recebeu a sugestão de um nome para a operação que não lhe agradou, por achar que não teria o impacto desejado. Optou, então, pela denominação Operação 274. Era uma alusão ao preço da gasolina que estava sendo cobrado indevidamente em alguns postos: R$ 2,74. Foi um sucesso a empreitada, e não houve vazamento. No que toca aos termos bíblicos, vale lembrar outras denominações, como Sagrada Escritura, Anjo da Guarda, Monte Éden, Babilônia, Galiléia. Em relação a Arca de Noé, que desarticulou o jogo do bicho no Mato Grosso, o nome bíblico aludia aos animais do jogo, e Arcanjo Ribeiro era o maior investigado. Galácticos investiou uma quadrilha que praticava crimes virtuais. 63 foram presos, e a denominação foi uma referência ao superelenco do Real Madrid. Como os criminosos se achavam estrelas, o time espanhol foi “homenageado”. Xeque-Mate, em 2006, desarticulou uma quadrilha do tráfico de drogas no Rio. 33 foram presos. Por que o nome? Anísio, o líder da quadrilha, era conhecido como Rei do Tráfico, daí a relação com o xadrez. Mas, quem forçar um pouquinho a memória, pode lembrar a operação Confraria (que na Paraíba levou a interrogatório o senador Cícero Lucena, por supostas irregularidades em obras públicas quando era prefeito de João Pessoa), a operação Hidra, Camaleão, Calouro, Cana Brava, Carpe Diem, Carro Forte, Carta na Manga, Coiote, De javù, Insônia, Lee Oswald, Orbi et Urbi, Gizé, Garota de Ipanema, Brilho dos Olhos, Cage e Cala Boca. Não há quem resista. Nem à prisão, nem ao impacto midiático da operação, pela alcunha com que passa a ser conhecida.